Orla de Maceió vira vitrine de sabores e impulsiona nova economia urbana

Fenômeno nas praias e praças da capital movimenta turismo, gera renda e transforma espaços públicos em polos de consumo

Por Ana Paula Omena, Lucas França e Valdete Calheiros - Repórteres / Bruno Martins - Revisão / Adailson Calheiros - Foto de capa | Redação Tribuna Hoje

A orla de Maceió aguça todos os cinco sentidos do corpo humano! Visão, audição, tato, olfato e paladar. A reportagem do Tribuna Hoje foi às ruas para mostrar a experiência sensorial que é percorrer os quase 17 quilômetros de extensão da orla urbana da capital conhecida como “Paraíso das Águas”, contando do Pontal da Barra até Jacarecica. Em todo este caminho, dois trechos ganharam um destaque importante: as tão cantadas em prosas e versos, as orlas de Ponta Verde e Pajuçara.

Quem passeia pela deslumbrante orla de Maceió não enche apenas os olhos de belezas naturais e guarda recordações para o resto da vida. Em especial, nos últimos meses, um fenômeno de empreendedorismo e gastronomia vem chamando a atenção da população local e dos turistas.

Andar pela orla é também, agora, um deleite, um verdadeiro tour gastronômico pelos mais diversos pratos culinários, tanto regionais, quanto nacionais e até internacionais.

Mulheres e homens empreendedores, com sociedade ou não, tendo ou não largado seus empregos formais, arregaçaram as mangas, colocaram luvas, aventais, juntaram sonhos e talentos culinários para transformar suas próprias vidas, dos familiares e das pessoas em geral, com experiências doces e salgadas, espalhando sabores, aromas e afetos, ajudando a transformar a orla urbana de Maceió em uma inesquecível delícia de dar água na boca.

Maria Solange Lima veio a Maceió trazendo na mala todos os seus dotes legitimamente baianos para vender acarajé na orla da Pajuçara. De quarta a domingo, sempre das 14h30 às 19h, ela fez a famosa pergunta: “acarajé quente ou frio?”, referindo-se a adicionar ou não pimenta.

Maria Solange Lima e seu delicioso acarajé (Foto: Adailson Calheiros)

A baiana, simpática por natureza, atrai dezenas de novos clientes a cada dia. Seu acarajé é tão genuíno que agrada até mesmo paladares soteropolitanos como o da Wlle Amorim Cardoso Benevides, que provou e aprovou o mais famoso prato da culinária baiana e uma referência mundial que coloca o Brasil em uma posição de destaque. “O acarajé dela não deixa a desejar em nada os que comemos em Salvador. É uma viagem gastronômica e afetiva que me leva de volta à minha terra natal”.

Baiana Wlle Amorim Cardoso Benevides aprovou o acarajé feito em terras alagoanas (Foto: Adailson Calheiros)

Os guias turísticos e amigos Márcio Morais e Sérgio Santos despedem-se, diariamente, da rotina de trabalho ao comer, cada um, no mínimo dois acarajés no tabuleiro da baiana. Segundo eles, já virou lei.

Guias turísticos Márcio Morais e Sérgio Santos batem ponto diariamente no tabuleiro da baiana (Foto: Adailson Calheiros)

Não falta quem queira encarar um churro depois de um acarajé. E o ponto certo é o carrinho da Rannyelle Lúcia dos Santos. Em seu dia de menor faturamento, ela prepara 100 churros. Na orla de Ponta Verde, das 13h às 22h, diariamente, ela alimenta seu sonho de empreender, através das escolhas dos clientes que quase sempre recaem sobre o tradicional churros de doce de leite.

Rannyelle Lúcia comercializa seus churros na orla (Foto: Adailson Calheiros)

Uma das empreendedoras é Rosana da Silva Santos, de 42 anos. A empresária está há 18 anos na orla. Uma das mais antigas no ramo, toma conta da “Fábrica de Tapioca” vendendo comida regional e oferece a “tapioca bota tudo”, ao valor de R$ 60. Ela garante que até seu misto quente, o lanche mais em conta, é diferente dos demais. Antes de iniciar seu negócio, assistiu palestras no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Rosana da Silva Santos é empresária e está há 18 anos na orla comercializando tapioca (Foto: Arquivo pessoal)

Aos 32 anos, Erica Souza está há nove meses na orla. Já dá até para dizer que seu “filho” já nasceu um negócio de sucesso. Ela comercializa comida típica nordestina, tendo a manga em tiras temperada tropical como carro-chefe.

Também sem sócio, comercializa seu lanche mais caro por R$ 30 e os mais em conta custam R$ 6. “Além da manga, temos o abacaxi temperado e sucos de frutas”, logo emendou a empresária. Ela se definiu como uma empreendedora há um bom tempo, mas afirmou que agora dita as regras na “Maceió Manga Beach”.

“Nosso principal atrativo é a manga temperada, inspirada na tradicional manga da Colômbia. Diferente da manga comum vendida em pedaços, trabalhamos exclusivamente com a manga cortada em tiras, trazendo mais sabor, praticidade e uma experiência totalmente diferenciada. Cada cliente pode personalizar o tempero conforme seu gosto, deixando o produto ainda mais especial”, explicou.

Erica Souza e seu quiosque na praia de Pajuçara (Foto: Arquivo pessoal)

Segundo Erica Souza, as tiras conquistaram o coração das pessoas. “Atualmente, a iguaria se tornou o grande diferencial da marca, aquilo que nos destaca e faz da Maceió Manga Beach uma referência quando o assunto é manga temperada na cidade”.

A empreendedora explicou que na orla de Ponta Verde trabalha apenas com a manga e o abacaxi temperados. Já no trailer, localizado na orla de Cruz das Almas, vende também salgados, sucos de fruta, waffles crocantes e cuscuz recheado.

No entanto, os maiores sucessos são, claro, a manga e o abacaxi que chegam ao cliente aos sabores de sal, lemon pepper, páprica picante, suco de limão e leite condensado. “Quem manda é o cliente”, assegurou Erica Souza.

Muito determinada, ela lembrou que sempre empreendeu. Já fez artesanatos, bolos, salgados, roupas. Agora, segue na luta pelo empreendedorismo com um novo tempero. E está dando super certo.

'Áreas antes pouco movimentadas passaram a registrar fluxo constante de consumidores, especialmente no período noturno, contribuindo para o fortalecimento da economia urbana e para a sensação de segurança nesses locais' - Fábio Leão, analista do Sebrae

Hilquias Ximenes e sua esposa Ruana Lins (Foto: Arquivo pessoal)

A empreendedora Ruana Lins, de 34 anos, ampliou o sucesso do casamento ao abrir sociedade com o esposo Hilquias Ximenes, de 35. Ela é formada em relações públicas. Ele é refrigerista.

Estão na orla há mais ou menos dois meses, com o “Mirante da Torta”. E, felizmente, o sucesso já veio para provar que uma boa ideia não precisa de muito tempo para ser reconhecida e cair no gosto da clientela.

“Resolvemos empreender porque não estávamos conseguindo empregos nas nossas respectivas áreas. Ousar já estava nos nossos planos futuros, antecipamos nosso desejo. Eu planejei me afastar do primeiro emprego para poder cuidar da nossa filha que nasceu ano passado”. O casal vende tortas salgadas e doces. Cada fatia custa R$ 15. O prato mais pedido é a torta de carne de sol com queijo coalho.

A empreendedora Ana Cliris Ferreira da Silva, de 36 anos, está há menos de um ano vendendo doces caseiros feitos no fogão a lenha. É um verdadeiro espetáculo de sabores e memórias afetivas.

Empreendedora Ana Cliris Ferreira da Silva vende doces caseiros produzidos no fogão a lenha (Foto: Reprodução)

Difícil escolher uma das opções no variado cardápio. Tem doce de mamão, leite cremoso, leite granulado, banana, abóbora, cocadas, pé de moleque, jaca, caju. Todos os doces são relacionados à roça. Os produtos são comercializados entre 15 e 25 reais e garantem o sucesso da “Alagoana na Roça”.

Ela sempre empreendeu na vida e entrou para o mundo dos doces há seis anos. Também recorreu ao Sebrae para entender mais sobre empreendedorismo.

A empreendedora Ana Luísa Vanderlei de Almeida, 25 anos, está no ramo de alimentação e confeitaria na orla desde dezembro do ano passado. Ela vende bolos e sobremesas.

Sua clientela costuma pagar R$ 35 para provar suas guloseimas e por R$ 20 consegue adquirir um lanche mais em conta, mas tão saboroso quanto. Todos com a qualidade da “Confeitaria Ana Trufas”.

Ana Luísa está no ramo de alimentação e confeitaria desde dezembro de 2025 (Foto: Arquivo pessoal)

“O bolo de pudim é, sem dúvidas, o mais pedido”, afirmou, ao contar que saiu do emprego convencional para empreender com mais afinco, coisa que faz desde os 12 anos de idade.

A estudante Karine Gomes afirma que não ir à orla e não buscar por uma dessas delícias é o mesmo de não ter ido. “É uma variedade de delícias, a gente fica sem saber o que comer, a estética e o tamanho já nos chamam atenção. Eu sempre que estou aqui não dispenso um desses lanches. Tem de tudo e tudo muito saboroso e com preços que a gente nem acredita. Vale a pena, são lanches que dá para mais de uma pessoa consumir”.

Por que esse movimento está crescendo agora:

• Crise econômica e desemprego levaram muitos a empreender por necessidade.

• Redes sociais transformaram comida de rua em entretenimento.

• Busca por experiências: o consumidor quer algo diferente, divertido, “postável”.

• Turismo forte em Maceió cria demanda constante.

• Cultura gastronômica local favorece lanches fartos, saborosos e acessíveis.

Barracas “virais” impulsionam nova economia urbana e fortalecem microempreendedorismo

As tradicionais barracas, bancas e carrinhos de lanche instalados na orla de Maceió e em pontos movimentados como o Parque do Centenário deixaram de ser apenas opções rápidas de alimentação para se tornarem protagonistas de uma nova dinâmica econômica na capital alagoana. Impulsionados pelas redes sociais, os chamados lanches “virais” vêm atraindo consumidores, turistas e empreendedores em busca de oportunidades de renda e crescimento.

Para o professor, economista e analista do Sebrae Alagoas, Fábio Leão, o fenômeno representa uma transformação importante no microempreendedorismo urbano e revela como criatividade, marketing digital e ocupação estratégica do espaço público podem movimentar a economia local.

Segundo o especialista, o impacto econômico acontece de forma imediata. Quando uma barraca ou carrinho viraliza nas redes sociais, o aumento das vendas gera uma cadeia de movimentação financeira que beneficia diversos setores. “Há crescimento na compra de insumos, contratação de ajudantes e fortalecimento de fornecedores locais, como panificadoras, distribuidores de bebidas, açougues e fabricantes de embalagens”, analisou.

Além da geração de renda, o fenômeno também fortalece o turismo em Maceió. Os lanches gigantes, recheados e visualmente chamativos passaram a integrar a experiência turística da cidade, atraindo visitantes interessados em conhecer os produtos famosos da internet.

A movimentação acaba beneficiando outros segmentos da economia, como motoristas de aplicativo, táxis, vendedores ambulantes, artesãos e até bares e restaurantes próximos aos pontos de maior circulação.

Analista do Sebrae Alagoas, Fábio Leão (Foto: Edilson Omena / Arquivo)

Outro fator apontado por Fábio Leão é a ocupação produtiva dos espaços públicos. Áreas antes pouco movimentadas passaram a registrar fluxo constante de consumidores, especialmente no período noturno, contribuindo para o fortalecimento da economia urbana e para a sensação de segurança nesses locais.

Para os empreendedores, o modelo se destaca pelo baixo custo inicial e pelo alto potencial de retorno financeiro. Diferentemente de um ponto comercial fixo, carrinhos e barracas exigem investimentos menores, permitindo que pessoas desempregadas ou em situação de subemprego encontrem uma alternativa de sustento e independência financeira.

As redes sociais também desempenham papel decisivo nesse crescimento. Os lanches considerados “instagramáveis”, com apresentações exageradas, recheios abundantes e estética chamativa funcionam como publicidade espontânea. Clientes registram vídeos e fotos, compartilham conteúdos e ajudam a divulgar os negócios gratuitamente.

Mesmo atuando nas ruas, muitos empreendedores já investem em identidade visual, cardápios personalizados e fortalecimento de marca, o que abre possibilidades para expansão futura por meio de delivery, food trucks ou até franquias.

A flexibilidade é outro diferencial. Por estarem em estruturas móveis, os comerciantes conseguem adaptar sabores, preços e formatos rapidamente, acompanhando tendências e preferências do público quase em tempo real.

O crescimento desse movimento também está ligado ao cenário econômico atual. A crise econômica e o desemprego estimularam o empreendedorismo por necessidade, enquanto as redes sociais transformaram a comida de rua em entretenimento e experiência de consumo.

Em uma cidade turística como Maceió, marcada pela forte cultura gastronômica e pela busca dos consumidores por produtos acessíveis e diferenciados, o fenômeno das barracas virais consolida uma nova economia urbana baseada em criatividade, inovação e conexão direta com o público.

"Essas barracas representam uma nova economia urbana, baseada em criatividade, estética, viralização e ocupação inteligente do espaço público. Para Maceió, isso significa mais renda, mais turismo e mais dinamismo econômico. Para os empreendedores, significa oportunidade real de ascensão financeira, muitas vezes partindo de investimentos pequenos e ideias simples, mas bem executadas”, finalizou Fábio Leão.

Alta dos lanches de rua impulsiona formalização e acende debate sobre ordenamento urbano

Os chamados “lanches virais” têm ocupado cada vez mais espaços em bairros de Maceió. O crescimento do comércio de alimentos nas ruas, impulsionado pelas redes sociais e pela busca por renda, também ampliou a procura pela regularização junto ao município.

Embora ainda não exista um levantamento consolidado sobre quantos novos ambulantes passaram a atuar na capital, a Secretaria Municipal de Segurança Cidadã (SEMSC) informou que trabalha na atualização dos dados para dimensionar o avanço do setor.

Segundo a coordenadora geral de Fiscalização de Posturas da SEMSC, Dayse Ramos, a prefeitura já percebe um aumento na demanda por autorizações para comercialização de pequenos lanches.

“Houve um crescimento significativo nas solicitações para o exercício do comércio ambulante de pequenos lanches na cidade, especialmente impulsionado pelas redes sociais e pela popularização dos chamados ‘lanches virais’. Esse aumento contribui para a formalização de pequenos empreendedores e para a ampliação das atividades econômicas no município”, afirmou.

O avanço desse tipo de comércio, porém, vem acompanhado de exigências ligadas à organização do espaço público, segurança alimentar e mobilidade urbana.

Licença é obrigatória para atuar nas ruas

Quem deseja vender alimentos em vias públicas precisa obter autorização municipal, seja presencialmente ou pelo portal da Prefeitura de Maceió. Para solicitar a licença, é necessário apresentar documentos pessoais, comprovante de residência, CPF ou CNPJ, fotos do equipamento, identificação do ponto comercial, descrição da atividade e imagem do local onde pretende atuar.

Além da autorização do município, há exigências ligadas à manipulação dos alimentos, incluindo documentação do negócio e, em muitos casos, certificado de capacitação em Boas Práticas de Manipulação de Alimentos, conforme normas sanitárias.

Dayse Ramos reforçou que atuar em espaço público sem regulamentação não é permitido. “Todos os empreendedores que atuam em espaços públicos precisam estar regularizados junto ao município”, destacou.

Para Dayse Ramos, coordenador geral de Fiscalização de Posturas da SEMSC, crescimento de carrinhos, trailers e barracas de alimentos em Maceió amplia busca por regularização e reforça fiscalização sobre comércio ambulante em espaços públicos (Foto: Arquivo pessoal)

Fiscalização pode terminar em apreensão

De acordo com a SEMSC, o trabalho de fiscalização ocorre de forma integrada com outros órgãos, especialmente a Vigilância Sanitária, responsável por verificar as condições de higiene e manipulação dos alimentos.

Quando são identificadas irregularidades, o município inicia um processo gradual de adequação. Primeiro, o ambulante é notificado para regularizar a atividade. Persistindo o problema, pode haver advertência formal e, em último caso, cassação da autorização e apreensão de equipamentos.

“A prefeitura busca equilibrar o incentivo ao empreendedorismo com a organização urbana, garantindo que os ambulantes atuem de forma regularizada sem comprometer a mobilidade, a acessibilidade, a segurança e o direito coletivo de uso dos espaços públicos”, explicou Dayse Ramos.

Cursos e novas regras podem ser ampliados

A prefeitura informou ainda que realiza estudos sobre o crescimento do comércio ambulante e avalia, quando necessário, ajustes nas regulamentações para acompanhar a demanda.

Segundo Dayse, também são oferecidas orientações e capacitações, principalmente pela Vigilância Sanitária, com foco em higiene, manipulação adequada de alimentos, segurança alimentar e regularização dos pontos comerciais.